A origem do candomblé


Muito se fala sobre os Orixás e suas origens/passagens na África, mas a criação do candomblé é pouco abordada em meio a tantos feitos dos deuses africanos.

Com a vinda para o Brasil dos negros africanos, os escravos, no período escravista, vieram todos os seus costumes, cultura, tradições, religiosidade, etc. Inicialmente os primeiros africanos a desembarcar no Brasil foram os Bantus, que praticavam secretamente o seu culto aos Inkisis (deuses Bantus). Esse culto já não era o mesmo que praticavam na África, pois não tinham os mesmos espaços, alimentos e liberdade para louvar seus deuses, logo tiveram que se adaptar a sua nova terra.

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Navio Negreiro | Imagem: Blog Ex Escravos e Senhores

Até o século XVIII o regime escravagista continuou ganhando força e os negros africanos continuaram a desembarcar no Brasil. Os negros vinham de várias partes da África nesse período, especificamente o povo Nagô (compreendendo, religiosamente, as nações: Nagô Egbá, Ketu, etc), desembarcando especialmente na região de pernambuco e no nordeste brasileiro.

Ná África os deuses eram cultuados de forma diferente. Cada tribo cultuava um determinado Orixá. Quando os negros chegaram ao Brasil vieram de várias tribos diferentes e para praticar a sua religiosidade tiveram que reunir os seus Orixás no mesmo culto, harmoniosamente, dentro do mesmo espaço, nas senzalas.

A escravidão teve fim em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea. Os escravos libertos tiveram a liberdade, mesmo que parcial, para a prática de seu culto, já adaptado á nova terra, com o sincretismo. Como os últimos negros a virem para o Brasil foram os Nagôs, o costume Ketu é o mais popular e difundido no Brasil. Por essa razão a maioria das pessoas conhecem Iemanjá dos nagôs e não conhecem Mikaia dos bantus, ambos deuses representam o deus do Oceano.

No final do século XVIII, algumas mulheres negras originárias de Ketu e Oyó, na Nigéria, e pertencentes a Capela da Confraria de Nossa Senhora da Barroquinha, atual Igreja de Nossa Senhora da Barroquinha, reuniram-se para estabelecer uma forma de culto que preservasse as tradições Jeje-Nagô (africanas) aqui, no Brasil. Esta comunidade foi fundada por três africanas cujos nomes são Adetá ou (Iyá Detá), Iyá Kalá, Iyá Nassô com a ajuda dos babalawos Babá Assiká e Bangboshê Obitikô. E dessa forma nasceu o Candomblé da Barroquinha, que mais tarde foi transferido para a Casa Branca do Engenho Velho. O termo candomblé possui dois significados entre os pesquisadores: candomblé seria uma junção do termo quimbundo candombe (dança com atabaques) com o termo iorubá ilé ou ilê (casa), significa, portanto, “casa da dança com atabaques”; ou ainda, viria de “Candonbidé”, que quer dizer “ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa”.

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Ilé Axé Iya Nassô Oká – Casa Branca do Engenho Velho | Foto: Domínio Público

Com o passar do tempo as sucessões do cargo de Yalorixá da Casa Branca do Engenho Velho foram acontecendo. Oba Tosí (Iya Marcelina da Silva) sucedeu Iyá Nassô. Com a morte de Iya Obá Tosí duas das suas filhas, Maria Júlia da Conceição e Maria Júlia Figueiredo, disputaram a chefia do candomblé, cabendo à Maria Júlia Figueiredo (Omó Niké) que era a substituta legal (Iya Kekeré) tomar a posse de Mãe do Terreiro. Maria Júlia da Conceição, a outra filha, afastou-se com as demais dissidentes (discordantes) e fundaram outro Ilé Axé, o Terreiro do Gantois.

Mãe Sussu (Ursulina de Figueiredo) substituiu Maria Júlia Figueiredo (Omó Niké) na direção do Engenho Velho. Com a sua morte nova divergência foi criada entre suas filhas, Sinhá Antonia, substituta legal de Sussu, por motivos superiores não podia tomar a chefia do candomblé, em consequência o lugar de Yalorixá foi ocupado por Tia Massi (Maximiana Maria da Conceição). Com essa decisão Eugênia Anna Santos (Mãe Aninha – Obá Biyi) e os dissidentes inconformados fundaram então um outro Ilé Axé, o Ilê Axé Opô Afonjá.

Em paralelo, nesse mesmo período, Ludovina Pessoa fundava o Terreiro do Bogum de costume Jeje Mahin (Nação Jeje); Manoel Joaquim Ricardo (Babá Talábi de Ajunsun) fundava a Casa de Oxumaré de ligada ao culto de Ajunsun (Nação Ketu); Roberto Barros Reis (Tata Kimbanda Kinunga) fundava o Terreiro Tumbensi de consume Bantu (Nação Angola); Maria Bernarda da Paixão (Adebolu) e seu marido, José Firmino dos Santos (Tio Firmo – Oxum Tadê) fundaram o Terreiro do Oloroke de Ekiti-Efon (Nação Efon); Inês Joaquina da Costa (Tia Inês – Ifá Tinuké) fundou o Ilê Obá Ogunté - Sítio de Pai Adão de costume Nagô Egbá (Nação Nagô); entre outros.

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As Raízes do Candomblé

Cada Axé tem seus costumes, suas peculiaridades e principalmente sua história secular. De todos esses Terreiros citados nasceram grandes sacerdotes que foram e são responsáveis pelo candomblé e legado ancestral que vivemos hoje. Se você é candomblecista iniciado para Orixá é bem provável que a sua história esteja ligada com algum desses Axés tradicionais.

 


Babalaxé Victor de Ayrá

sobre Babalaxé Victor de Ayrá

Babalaxé do Egbé Jurema Nagô - Casa de Ogun, foi iniciado em Ayrá em 2006. Extrovertido, brincalhão, considerado polêmico por alguns amigos e, acima de tudo, um grande estudioso do candomblé, principalmente do culto ao Orixá e Mestres da nação Jurema Nagô. Saiba mais ...

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