A nação Jurema Nagô


Para quem ainda não sabe, sou Babalaxé da Casa de Ogun que é de candomblé Jurema Nagô. Isso mesmo, candomblé Jurema Nagô. Basicamente é uma tradição que funde o culto aos Orixás com o culto a Jurema.

A nação Jurema Nagô é um culto híbrido, nascido dos contatos ocorridos entre as espiritualidades indígenas, europeias e africanas, contatos esses que se deram em solo brasileiro, a partir do século XVI, com o advento da colonização.

Consistindo na miscigenação dos cultos, a nação é sustentada por 2 pilares: o candomblé Nagô Egbá e a Jurema Encantada com sua ramificações e o que tudo isso engloba em suas raízes.

Entendendo a origem

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O conhecimento era trocado entre as mais diversas religiões

Essa nação, embora concentrada na região do nordeste brasileiro e pouco difundida para outras regiões, tem sua origem a mais de 500 anos na própria história do Brasil. Antes do Brasil ser descoberto já existia os cultos e ritos indígenas, conhecido como Encantaria que por sua vez é baseada na junção dos rituais existentes no Brasil (antes da colonização) como xamismo, pajelança, entre outros cultos indígenas. Seu culto era voltado para a terra (flora e fauna) e os encantados que aqui habitavam, tendo como figura sacerdotal os pajés e xamãs.

Após o período de catequização dos índios sofremos a primeira miscigenação étnica religiosa no culto brasileiro (a Encantaria), tendo misturado muitos valores do catolicismo. Com o passar da história tivemos todo o processo de colonização e o regime escravagista, trazendo para nossa terra os escravos, os negros da África. Junto com os primeiros escravos (povo Bantu), vieram seus costumes, cultura, suas tradições e religiosidade, que apesar de não serem aceitas eram praticadas em sigilo, sincreticamente.

Em paralelo, o Brasil recebia os europeus, que vinham explorar nossa terra e também contribuir para a miscigenação étnica religiosa do Brasil.  Com os europeus vieram suas práticas religiosas como catolicismo e práticas de magia (principalmente a portuguesa e italiana).

Obs.: Nesse atual cenário conseguimos perceber que temos a Encantaria miscigenada com os valores católicos, e o culto afro miscigenado também com os valores católicos.

Com o passar do século, por volta do século XVII, surgiu o Catimbó consistindo na fusão das práticas nativas com as práticas religiosas europeias. (Atualmente o Catimbó é muito praticado em todo Brasil, principalmente no nordeste brasileiro).

O regime escravagista continuou ganhando força e os negros africanos continuaram a desembarcar no Brasil. Os negros vinham de várias partes da África nesse período, especificamente o povo Nagô (compreendendo, religiosamente, as nações: Nagô Egbá, Ketu, etc), desembarcando especialmente na região de pernambuco e no nordeste brasileiro.

A resistência negra á escravidão aumentava a cada dia, fazendo com que os negros fugissem das senzalas para os quilombos que foram criados para refugiar os negros, sendo secretos e de difícil acesso. Para chegar aos quilombos os negros tinham que percorrer grandes caminhos e por inúmeras vezes, antes de chegar aos quilombos, eram abrigados nas casas dos habitantes vizinhos que eram favoráveis a causa dos negros, inclusive, ficando até por longo período de tempo. Muitos dos abrigadores dos negros eram catimbozeiros, que ao abrigar o negro abrigava também toda sua cultura e costume, assim como o negro absorvia as práticas do catimbó. Com o passar dos anos essa troca de experiências acabou por miscigenar o catimbó com o culto aos orixás da nação Nagô Egbá, constituindo uma nova religião/nação conhecida como Catimbó-Jurema ou Jurema Nagô. Um culto híbrido, nascido dos contatos ocorridos entre as espiritualidades de origem indígena, européia e africana.

Com certeza é uma das religiões mais brasileiras que existe, pois assim como a construção do Brasil a Jurema Nagô é baseada na miscigenação de vários cultos, religiões, costumes, etnias, etc. A mistura e a evolução é a base da Nação Jurema Nagô que hoje também, de alguma forma, é composta pela Umbanda, Kardecismo, entre outros.

 


Babalaxé Victor de Ayrá

sobre Babalaxé Victor de Ayrá

Babalaxé do Egbé Jurema Nagô - Casa de Ogun, foi iniciado em Ayrá em 2006. Extrovertido, brincalhão, considerado polêmico por alguns amigos e, acima de tudo, um grande estudioso do candomblé, principalmente do culto ao Orixá e Mestres da nação Jurema Nagô. Saiba mais ...

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