A evolução do candomblé


Evolução do candomblé1 A evolução do candombléO candomblé é uma religião evoluída? Como podemos fazer a evolução do candomblé? Pois esses são questionamentos polêmicos e que sempre estão nas rodas de discussão dos adeptos da umbanda e candomblé.

A origem de nossa religião é milenar e embora não seja praticada como em seus primórdios, na África, herdamos boa parte da prática litúrgica do culto aos Orixás. Naturalmente conservamos muitos atos milenares, rudimentares e que eram praticados em um cenário cultural, climático, político, até mesmo tecnológico extremamente diferente do que vivemos atualmente. O candomblé que praticamos hoje já é uma adaptação do culto aos Orixás feito na África, pois as condições de prática nas senzalas e a nossa flora/fauna não permitiam aos adeptos encontrarem as folhas, frutos e animais para fazerem oferendas da forma que faziam em seu continente natal. Seria o Candomblé a primeira evolução do culto aos Orixás?

Muitas casas de axé não utilizam eletrodomésticos para auxiliarem no preparo das comidas ritualística, ainda usam o pilão para moer os grãos, buscando estar cada vez mais próximo da prática nos primórdios. Na parte litúrgica, a maioria das casas de axé seguem a risca todo o processo de recolhimento para iniciação e obrigações, onde o recolhido se isola do mundo por um período de tempo longo, que vai de 7 dias a 3 meses. Os ebós, perfurés e mojubás são sempre marcantes. Tudo em nome da tradição e conservação dos costumes. Quanto mais antiga a casa de candomblé, maior a tendência ao conservadorismo.

Penso que hoje os tempos são outros. Estamos em um outro contexto e assim como nossos ancestrais se adaptaram ao chegarem no Brasil, precisamos evoluir para o tempos que estamos vivendo hoje. O tempo de recolhimento dentro de um Axé praticado hoje deveria ser repensado, pois nem todas as pessoas podem ficar recolhidos por 21 dias ou 3 meses. Dessa forma corre o risco em seu emprego e desampara os seus dependentes.

A saúde, higienização e conservação dos barracões é outro ponto que deveria ser repensando. Atualmente temos conhecimentos de diversas doenças que antes “não existiam” e para evitá-las é preciso tomar uma série de precauções. Existe políticas públicas de conscientização específicas para o povo das religiões de matrizes africanas com o foco na prevenção de doenças como HIV, Hepatite, entre outras. Por esses motivos repensar a navalha que é utilizada em nossos atos, o tempo que os ebós ficam arriados no pé do santo, os locais que os ebós são dados e o compartilhamento de objetos de uso pessoal (principalmente copos ritualísticos) é extremamente relevante. Abordaremos melhor o tema saúde no axé em outro post.

A evolução não pode ser entendida como achincalhamento de nossa religião. Hierarquia, respeito indiferentemente de cargo, responsabilidade com os atos e vidas, respeito aos ciclos do Yaô, conservação da moral e bons costumes, humildade, entre outros, são atemporais e deve (ou ao menos deveria) sempre ser o esteio de uma casa de axé séria.

Como cada casa de candomblé (e umbanda também) é um reino com o seu rei (o Babalorixá) e/ou rainha (Ialorixá), compete a cada sacerdote fazer uma análise, repensar o que deve ser feito e da forma que deve ser feito para evoluir, ao menos, a religião que pratica em sua casa de axé. Se ater aos dogmas e pensamentos do tipo “Foi assim que eu aprendi”, “É necessário conservarmos as tradições” ou “Isso não se faz necessário”, pode significar uma afronta aos Orixás. Negar a evolução é negar Orixá, matando o seu culto pouco à pouco. O mais importante é cultuarmos Orixá, não importa como e nosso antepassados já mostraram isso. Orixá é vida, evolução, movimento e guia os nossos passos. Será que não seria hora de nos movimentarmos?


Babalaxé Victor de Ayrá

sobre Babalaxé Victor de Ayrá

Babalaxé do Egbé Jurema Nagô - Casa de Ogun, foi iniciado em Ayrá em 2006. Extrovertido, brincalhão, considerado polêmico por alguns amigos e, acima de tudo, um grande estudioso do candomblé, principalmente do culto ao Orixá e Mestres da nação Jurema Nagô. Saiba mais ...

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